Transcreve-se a seguir um fragmento das memórias do Profeta, inédito, de autor desconhecido.

- Deus…
- …
- Deus…
- …
- DEUS!
- Fonha-se, que susto, cacete!
- Desculpe lá, mas pensei que estivesse distraído.
- Não, meu pequeno Cogumelo, estava a tentar perceber o que um monhé me estava a pedir naquilo que julgo ser uma oração.
- Mas não foste tu que criaste céu e terra, todas as coisas que sobre e sob ela andam, e respectivas linguagens?
- Sim, – respondeu Deus sem se atrapalhar – mas é um bocado difícil perceber o que um tipo diz quando lhe estão a electrocutar os tintins. Mas diz-me, o que queres?
- Bem…
- Vá lá, Cogumelo, não é pelo facto de estares a falar com o Criador de tudo quanto mexe e não mexe, fala e não fala, o que passou, o que existe e o que há-de ser, amante do próximo, castigador do herege, sodomita e da fufa lambe-relva, ominpresente e omnipotente Senhor do Universo, que deves estar para aí com salamaleques. Então, o que se passa?
O Profeta hesitou, mas por fim lá disparou:
- É precisamente isso… Não te preocupa o facto de não existires?
A imagem divina no espírito alucinado do Profeta tremeu, desvaneceu-se por instantes e reapareceu a preto e branco. Quase em surdina, retorquiu:
- Mas nota-se assim tanto?
Cogumelo aquiesceu:
- Yep. És uma ficção, pá.
A imagem divina, agora algo granulada, coçando o nariz, perguntou:
- O que é que me denunciou? Aquela cena de criar o mundo em 6 dias? Eu disse-lhes logo que menos de um mês dava nas vistas, mas NÃAAOOoo, quiseram fazer de mim um super homem e não sei o quê e, pelos visto, deu merda.
- Não, nada disso – atalhou o Profeta – É que, pura e simplesmente, tu não serves para nada.
A imagem não parecia muito convencida:
- Nada?? Então e os milhões que acreditam que criei o Mundo? Que fecundo Virgens? Que castigo rabetas e paneleiros? Que sou o fundamento moral da sociedade?
- Bem, pazinho, esses milhões precisam é de ir tratar-se, precisamente pelas razões que acabaste de dar. Essa cena da Virgem fecunda resultou de um lapso na tradução do original – lá falava-se em jovem mulher, não virgem. Por exemplo. Mas mil e uma merdas que se escreveram em teu nome não valem um pintelho. Vá lá, como tu.
- Blasfemo! – agitou-se a imagem – Sabes o que te vai acontecer por tais impropérios?
- Sei. Nada.
- Pois é… nada…- respondeu desconsoladamente a imagem, cada vez mais imperceptível sobre as garridas cores amarela, verde, rosa e outras psicadélicas que coloriam a alucinada mente do Profeta.

Já aqui foi referido que o Profeta, por vezes, se dirige directamente aos fiéis através das suas Servas.

Tal acontece quando as Cogumitas entram em êxtase orgásmico, o que podem atingir através de duas vias: sexual e resolver problemas de sudoku como se não houvesse amanhã.

Ora esta noite, a Palavra revelou-se mais uma vez: as noviças Christiane Silva, Zuleika Sofia e Eva Gina despojaram-se dos seus severos hábitos, besuntaram-se com óleo de amendoas doces e, em leito redondo polvilhado com pétalas de rosas acabadas de colher, cada uma pegou num lápis e deram-lhe com força.

Ao fim de alguns minutos, após a resolução de dezenas de problemas, o Profeta revelou-se através dos guinchos orgásmicos das noviças, que se encontram neste momento a traduzir os «dá-me-lo todo» [a solução] e os «si, cariño» e aiiis e uiiiis em português para a compreensão dos devotos.

Assim, em breve, aqui serão transcritas as primeiras palavras do Profeta desde o seu precoce desaparecimento.

À excepção da Profética Fecundação, são escassos os elementos relativos aos primeiros anos do Fungo, ao seu despertar para o Divino e, em especial, à ligação Àquele de quem se viria a tornar Discípulo e, mais tarde, Apóstolo e até mesmo Deus.

Com efeito, poucas figuras na História (especialmente nas Fábulas religiosas) passam de Profeta para seguidor do profetizado e, muito menos, se tornam no próprio profetizado ou similar.

Etimologicamente, «profeta» significa «quero que me crucifiquem de pernas para o ar não sem antes me cortarem a cabeça e sodomizarem à bruta e não necessariamente por esta ordem», o que causava algum embaraço e exigia alguma ginástica se começavam pela crucificação.

Todavia, inexistem nos anais conhecidos elementos que permitam afirmar que os, vá lá, anais do Fungo tenham sido conspurcados, sendo que chegou à situação divina sem ter de pegar de empurrão.

Sabe-se apenas que o pequeno Cogu, como era conhecido na primária, era um tipo simpático, caladinho, sardento e com óculos, sempre o último a ser escolhido quando faziam equipas de futebol e passava os jogos todos sentado no banco, porque nunca mais ninguém se lembrava dele depois de o mandarem lavar os balneários.

Tal causou no depois profeta um profundo sentimento de revolta reprimida, o que se projectou numa dimensão paralela através criação de um seu alter ego, não um fungo fofinho mas um monstro negro com cento e trinta e dois metros de altura, oito pares de braços com seis garras cada um, dezassete chifres e seis mandíbulas de aço, responsável pela destruição de, pelo menos, doze galáxias em três universos distintos.

Mas, por cá, continuou a assistir aos últimos três minutos de cada jogo.

Aproxima-se o mês de Maio, tradicional e comercialmente consagrado à figura materna.

Tal abrange quer a mãe terrena quer a divina, sendo esta última, pois claro, a mãe de Cogumelo, uma trufa toda jeitosa que o pariu ao ser farejada por um porco muito especial – foi assim o Profeta o primeiro fruto do chamado sexo olfactivo, pranchada de focinho ou trancada fúngica – convém ter sempre uma trindade nisto de religião, para dar um ar mais respeitável e credível à coisa.

É assim que a Congregação das Servas Cogumitas convida todos os fiéis que, neste mês de Maio, queiram obter a Graça Divina a dirigir as suas preces a Nossa Senhora da Trufa Suina e Feromonicamente Fecundada.

Por ora podem obter tais graças com orações em geral, tipo «Mãe do Apóstolo, quero ganhar o Euromilhões / aumentar o pénis / não ter que fingir orgasmos» e afins, uma vez que as nossas Irmãs se encontram ainda em aturado labor a transcrever as «Primievas Orações Fúngicas», o verdadeiro Código de Cogumelo para os assuntos divinos.

Apócrifo ou não, o texto que segue apresenta todas as características do estilo do próprio Discípulo, considerando a prosa cuidada, vocabulário esmerado e sarcasmo liberto de quaisquer limites. Tenha sido, ou não, escrito pelo próprio Cogumelo, serve de toda a maneira como testemunho de um tempo que já não volta.

C’um camandro, ninguém imagina o trabalho que dá relatar a vida dos outros. E para quê? Mais tarde ou mais cedo os pergaminhos perdem-se, ou ardem, ou alguém lhe limpa o cu e depois, kaput. Fode-se tudo. Mas gostei de o fazer com Pita. «O fazer» não no sentido de prática sexual sodomita, mas enquanto segui-lo e registar os seus feitos. Só faltava agora algum fanático de merda vir copiar isto tudo e trocar o nome dele por algo idiota, tipo Jesus ou isso – onde é que já se viu adorar alguém com o mesmo nome do guarda redes do Vitória de Guimarães? Mas ele há gente para tudo.

A idade também não ajuda. A Burrificação aconteceu já há dezenas de anos e estou cansado, a ver cada vez pior e a ter cada vez menos erecções. Provavelmente, estas serão as minhas últimas palavras escritas. É isso, a partir de agora vai ser só com a língua, tudo na base do oral: os (cada vez menos) episódios de que me lembro da minha juventude apostólica vão ser ditados às minhas queridas após me fazerem o belo do felácio. Elas que os escrevam se assim o entenderem. Não vou passar os poucos anos que me restam a estragar a vista e a mão direita a escrever. Olha, e começo já… Marineide, querida…

A autoria do texto que segue, envolta em alguma controvérsia, tem sido atribuída pela maioria dos teocogumólogos a Marineide Carvalho, uma das primeiras seguidoras e servas do Discípulo Cogumelo na conturbada época que se seguiu à subida de Pita aos Céus – ou descida ao Inferno, que no caso é exactamente a mesma coisa -, uma mulher trabalhadora que fazia render como ninguém os 10 euros de qualquer homem. O original, preservado na Congregação, tem a rara particularidade de estar redigido em Fúngico Badalhoco, técnica (arte, até) de escrita caracterizada pela utilização da secreção das mucosas, o que quer dizer que é possível determinar o ADN da autora e de qualquer homem, mulher, ovelha ou cavalo que eventualmente se tenha cruzado com ela.

Querido Diário: estamos com bué de medo. Desde que o outro foi cruc, crux, assim tipo pregado nuns paus que o negócio tem andado a modos que fraco. O people está, assim tipo, sem fé e tal e dinheiro para pagar os nossos serviços não especificados. Mas temos de acreditar e coiso, assim tipo como que a modos formar uma seita e tal, para assim defendermos os nossos direitos e coiso. Uma das maneiras que temos para nos reconhecermos umas às outras é um sinal secreto que eu inventei e que é bué da fixe: erguemos o braço à altura dos olhos, viramos as costas da mão para a pessoa que pensamos ser também, vá lá, discíputa, e retraímos os dedos anelar e indicador, deixando o médio bem erecto. Curto bués, e fazemos montes de amigos assim. O último foi assim tipo que um gajo baixinho, que passa a vida a falar em Religião e tal, mas só quando não está com a boca enfiada no meu [ilegível] ou a mocar como se não houvesse amanhã. Acho que começo a gostar dele, querido diário, até porque me dá umas boas [ilegível, mas provavelmente "gorjas"]. Acho que estou apaixonada por este cogumelito, e estou mesmo a pensar baixar-lhe o preço para 5 érios. Boa noite e jokas ffs, Querido Diário – Marineide Carvalho

Oi.

Nóis é um grupo de gente que venera e honra os ensinamentos de S. Cogumelo, preservando a sua Palavra, através da publicação de relatos dos seus feitos, na era pós-pítica, divulgando os seus registos há muito esquecidos.

De tempos a tempos, e por directa inspiração Fungosa, publicamos a palavra do Mestre tal qual a recebemos nos nossos receptivos úteros.

Somos, ainda, responsáveis pela guarda e preservação da Fúngica Relíquia, sobre a qual fazemos os nossos votos de Cogumitas, e em relação à qual estamos obrigadas a um dever de silêncio e segredo, sob pena de se libertarem todas as Forças do Mal sobre a Terra.

Também fazemos mamadas a €10.

Dayse Marlene, Cogumita Superiora